DA
LOUCURA EM PORTUGAL
Lallementfrères, Typ. Lisboa, 1871
DA LOUCURA
E DAS
MANIAS EM PORTUGAL
ESTUDOS HUMORISTICOS
POR
JULIO CESAR MACHADO
LISBOA
LIVRARIA DE A. M. PEREIRA—Editor
50—Rua Augusta—51
1871
Tudo é alegre, á entrada: flores e arvores. D'ali a nada,—da portapara dentro parece já que passou o outomno por cima da primavera d'aquellejardim!... Apagam-se as côres, escurece o céo, ouve-se estalar a casca dasarvores... Principiam as physionomias a transtornar-se; já os olhos não sãooutra cousa{6} senão buracosluzidios; cavam-se as faces, parecem caretas os sorrisos, não teem os gestossignificação, as feições são vagas, a fórma tem contornos indecisos; tudo sãopersonalidades phantasticas, existencias ficticias; linguagem que não seentende; gente estranha, que dá idéa dos habitantes da lua!...
Alguns dançam, e cantam; e passa a tristeza n'aquella alegria, etranspõem-se effeitos de claro escuro na musica e na voz delles,envolvendo-lhes a idéa como n'um crepusculo!... Parece que se estão avistandoali as visões de Swedenborg, aquelles espiritos do ar que conversavam uns comos outros e que se entendiam pelo piscar dos{7} olhos... Como essas taes conversas no fundo dasnuvens, assim é desusado e insolito quanto por lá se ouve!
Ás vezes chega a parecer-nos que é natural tudo aquillo; que o ser como nóssomos e portar-se como nos portamos—é ser affectado, é ser pedante; queassim como na natureza tanto ha sensitivas como ha cevada e centeio, assim devehaver nas creaturas sentimentos complexos que a linguagem vulgar não poderiadar; que são elles quem tem juizo; melhor do que juizo, talento: a finura, oguindado, a quinta essencia do espirito; que em nós ha simplesmente mudança deconvenções; que elles estão mais perto do{8} estado natural; que tudo vae da maneira de ver ascousas e de as julgar; da opinião dos homens e do genio e moda dos tempos; quetambem o amor já foi outro quando inspirava as filhas dos patriarchas a dar debeber aos pastores; e depois, na Illiada, quando levava Helena ao leito nupcialde Páris; na Grecia, creança a quem ensinavam gracinhas anacreonticas; ébrio,nas orgias de Roma; na idade media, fada, estrella, anjo; mais tarde tendo azascomo os desejos; e sendo hoje um casamento commercial, um dote de noiva, cemcontos de réis em inscripções!...
Assim chega a pensar-se ali, que a vida, que é um entrudo, tambem{9} varíe de mascaras, de modas, deelegancia e de fallas; e que o estylo dos pobresinhos doidos, comquanto diversodo dos tempos em que vamos de tanto tino e conceito, seja talvez mais subtil,mais colorido, e mais exacto!...
Ha ali, hoje, quinhentos e onze d'esses infelizes; duzentas e cincoenta esete mulheres, duzentos e cincoenta e quatro homens; tres creanças idiotas.Quando o marechal Saldanha fundou este hospital em 1850 o numero dos alienadosera de trezentos; ultimamente tem crescido por fórma que foi precisoaugm