GUELFOS E GIBELINOS
TENTATIVA CRITICA
SOBRE A ACTUAL
POLEMICA LITTERARIA
POR
E. A. VIDAL
LISBOA
LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA
50—RUA AUGUSTA—52
1866
GUELFOS E GIBELINOS
TENTATIVA CRITICA
SOBRE A ACTUAL
POLEMICA LITTERARIA
POR
E. A. VIDAL
LISBOA
LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA
50—RUA AUGUSTA—52
1866
LISBOA—TYP.DE SOUSA NEVES, RUA DO CALDEIRA, 17
Assistimos, ha muito, a uma travada peleja entre guelfos e gibelinos, querdizer, entre brancos e negros, entre os homens da claridade e os doentenebrecimento. O que ao principio se assimilhava a uma contenda de Alecrim eMangerona, contenda em que de um lado pleiteava D. Gilvaz as excellenciasd'aquella planta, e do outro D. Fuas proclamava as virtudes d'est'outra,transformou-se no correr dos tempos em uma batalha renhida, a que, pordesgraça, não tem faltado as chufas que nada provam, nem os insultos que nadavencem.
Antes das cousas terem chegado a este ponto malfadado, escrevia eu oseguinte:—«Essa polemica litteraria, que de dia para dia cresce,converter-se-ha em verdadeira revolta, e, se eu não me engano, terminará poruma lucta cruenta e decisiva, onde se hão de gladiar os homens do cormentalismocom os austeros contempladores do infinito.»—A prophecia realisou-sefinalmente; a liça é já pequena para os contendores que descem a ella, e oruido das armas perturba o somno e a digestão dos indifferentes.
Deveria eu permanecer no meu retiro obscuro? Deveria{4} contemplar em silencio este duello litterario? Diz-me quenão a consciencia. Acima d'estas aggressões pequenas em que tanto uns comooutros procuram derribar, quer uma reputação nascente, quer uma gloria jáfeita, eu vejo a questão da arte, a questão dos principios, a questão dastendencias; questão que é necessario tratar no verdadeiro pé, sem nuvens derancor que nos obscureçam o espirito.
Póde a chamada escola coimbrã causar á litteratura portugueza os males que aescola marinesca occasionou á italiana? As opiniões divergem, ha terroristasque o affirmam, e ha patriarchas que o contestam. Eu não vejo na seita deCoimbra, tal qual se nos apresenta agora, força bastante para depravar a arte;mas creio ao mesmo tempo que é dever de bom cidadão tomar o passo a qualquerque lhe invade a terra, para que os ignorantes não acclamem o intruso, e em vezde lhe invergarem a tunica do opprobrio, lhe atirem sobre os hombros a purpurados Cesares. O que hoje é riacho, sem limpidez nem bellesa, póde ámanhãengrossar e converter-se em oceano. Depois, o erro, prégado com boa fé ou semella, incute-se e enraiza-se facilmente. Os falsos prophetas medram e florescemsempre. Quando se lhes quer pôr travanco, a plebe furiosa congrega-se, apedrejao indiscreto, e vae mais reverente ainda beijar os pés do milagreiro. É ahistoria de todos os tempos e de todos os povos. Este cair no abysmo, estefugir da luz para as trevas, este negar a Deus para affirmar a Iblis, eis o queeu temo por agora.
Digamos a