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O Mysterio da Estrada de Cintra
O Mysterio da Estrada de Cintra
Cartas ao Diario de Noticias
Terceira Edição emendada e precedida d'um Prefacio
Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor50—RUA AUGUSTA—54
LISBOATYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA11—Apostolos—1.^o
+PREFACIO DA 2^a EDIÇÃO+
CARTA AO EDITOR D'O Mysterio da Estrada de Cintra
Ha quatorze annos, n'uma noite de verão no Passeio Publico, em frente deduas chavenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que emtorno de nós cabeceava de somno ao som de um soluçante pot-pourri dosDois Foscaris, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquiloa berros, n'um romance tremendo, businado á baixa das alturas do Diariode Noticias.
Para esse fim, sem plano, sem methodo, sem escola, sem documentos, semestylo, recolhidos á simples «torre de crystal da Imaginação», desfechámosa improvisar este livro, um em Leiria, outro em Lisboa, cada um de nós comcom uma resma de papel, a sua alegria e a sua audacia.
Parece que Lisboa effectivamente despertou, pella sympathia ou pelacuriosidade, pois que tendo lido na larga tiragem do Diario de Noticiaso Mysterio da Estrada de Cintra, o comprou ainda n'uma edição em livro;e hoje manda-nos V. as provas de uma terceira edição, perguntando-nos oque pensamos da obra escripta n'esses velhos tempos, que recordamos comsaudade…
Havia já então terminado o feliz reinado do senhor D. João VI. Fallecera osympathico Garção, Tolentino o jocundo, e o sempre chorado Quita. Além doPasseio Publico, já n'essa epoca evacuado como o resto do paiz pelastropas de Junot, encarregava-se tambem de fallar ás imaginações o sr.Octave Feuillet. O nome de Flaubert não era familiar aos folhetinistas.Ponson du Terrail trovejava no Sinai dos pequenos jornaes e dasbibliothecas economicas. O sr. Jules Claretie publicava um livrointitulado… (ninguem hoje se lembra do titulo) do qual diziamcommovidamente os criticos:—Eis ahi uma obra que ha de ficar!… Nós,emfim, eramos novos.
O que pensamos hoje do romance que escrevemos ha quatorze annos?…Pensamos simplesmente—louvores a Deus!—que elle é execravel; e nenhum denós, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem ao seu peorinimigo, um livro egual. Porque n'elle ha um pouco de tudo quanto umromancista lhe não deveria pôr e quasi tudo quanto um critico lhe deveriatirar.
Poupemol-o—para o não aggravar fazendo-o em tres volumes—á enumeração detodas as suas deformidades! Corramos um veu discreto sobre os seusmascarados de diversas alturas, sobre os seus medicos mysteriosos, sobreos seus louros capitães inglezes, sobre as suas condessas fataes, sobre osseus tigres, sobre os seus elephantes, sobre os seus hiates em que searvoram, como pavilhões do ideal, lenços brancos de cambraia e renda,sobre os seus sinistros copos d'opio, sobre os seus cadaveres elegantes,sobre as suas toilettes romanticas, sobre os seus cavallos